Gato também toma atrack!

Estava em com mais ou menos uns 19 ou 20 anos. Naquela época eu estava começando a minha fase punk da vida. Muita loucurada na casa do Japonês, que estava praticamente sempre cheia de vagabundagem de todo tipo (até hoje).

Lá pelas tantas, um parceria muito da antiga, lá dos tempos do Partenon, de quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, começou a freqüentar...O apelido dele era Tony Coxa. Sempre teve fama de loucão, mas era honrado. Não era chinelo, porém, tinha um primo que era o cara mais ladrão e bandido que eu conheci até hoje, mas só pra marcar, pois não vou falar dele.

Vou falar do dia em que fui à bangú pra praia, pela primeira vez. Entende-se por "à bangú", sem nenhum planejamento, recurso ou transporte.
Pelas andanças na rua, a gente tinha aprendido uma arte de fazer pulseiras de Miçangas, de todos os tipos, com vários nós e pontos diferentes. A gente colocava essas pulseiras num cano, chamado de Mangueador, e saía pela rua, oferecendo. O Tony Coxa foi quem teve a idéia de ir pra praia e se manter usando o mangueador. Idéia meio Hippie, porém, no Trecho, as culturas de rua se fundem, uma hora se é punk, depois meio hippie, depois meio escoteiro, sei lá.


Bom, fomos pro centro, e no caminho eu achei um filhote de GATO PRETO. Imaginem: resolvi colocar o gato na mochila e levar junto na jornada. Após alguns insucessos com as miçangas, fomos pra rodoviária e começamos a contar histórias tristes, (mangue) até que conseguimos juntar uns trocados e comprar duas passagens pra praia. Lá se foram os 3: eu, o Tony Coxa e um gato preto. Rumo à Tramanda Beach.

Chegando em Tramandaí, percebemos duas coisas. A cidade estava altamente populada. Tinha muita gente!!! Mas muita mesmo!! Isso significava que a gente ia se dar bem com o Mangueador... Outra coisa que percebemos: Tinha muuuuuuuuito brigadiano!!! A gente ia se dar mal, andando pela rua e sem saber ainda onde iríamos dormir. Mas quem estava pensando em dormir?

Só estávamos pensando no momento. Dormir era sei lá quando! Naquele momento a noite tava fervilhando de gente, luzes, sons e não demorou pra aparecer os primeiros conhecidos, com uma garrafa de cachaça de Santo Antônio, aquela azulzinha...

Uns goles de guti-guti e já tinha uma meia dúzia de vagabundos andando com a gente... Pois éramos muito comunicativos e chamativos. Colocamos em ação os mangueadores e começamos a levantar uma grana incrivelmente rápida. Lá pelas tantas, de tanto vagabundo que tinha na praia, resolvemos comprar duas latas de Solvcril pra vender molhos a um real (e como tinha gente que comprava!!) É, mas essas idéias eram do Tony Cocha, que era locão e depois eu fiquei sabendo que tomava Prozac.

Bom, chegamos as 18h em Tramandaí sem nada e as 22h já estávamos com um bando de 6 cabeças (todos à bangú que nem nós), uma PET 2 litros de cachaça com sei -lá o que, 2 latas de solvcril, e resolvemos parar pra queimar um baseadão, bem ali do lado da Ponte que liga Tramandaí Imbé. Pedimos!

Ao se acender o beck, não demorou 3 minutos e chegou uma viatura. "Caiu a casa, magrão!" - Gritou o brigadiano que já desceu do carro com o cacetete em punho e pronto pra tacar no primeiro que se mexesse. Como manda o figurino, ninguém se mexeu.

Comecei a ser revistado. Todo mundo com a mão na cabeça. Nisso o brigadiano, revistando a minha jaqueta, estilo militar, achou uma Marica muito doida, daquelas toda trabalhada em durepoxi. "Que isso, magrão?? " Tive que dizer: "Uma marica!". A essa hora já estava cheio de gente na volta, assistindo os punks tomando atrack. O pm pegou a marica e colocou no nariz de um senhor que estava assistindo o atrack e disse: "Senhor, veja aqui se tem cheiro de maconha!!" O véio disse: "É! Tem cheiro de maconha mesmo!" Aí o brigadiano fez um "lançamento de marica" (nova modalidade do Pan), lá dentro do Canal que divide tramandaí-imbé.

Voltou e continuou a minha revista. E, quando chegou nos bolsos da jaqueta, deu aquele barulho: "Tum, tum... " "Que isso, Magrão? O que tu tem nos bolsos? " Saíram duas latas de Solvcril uma de cada bolso... Bah, daí foi aquele sermão! "Faz mal, vão se matar, isso não se faz, que mal exemplo, lixo da sociedade, etc" Fizeram eu derramar todos os 2 litros do goró dentro do bueiro e todo o Solvcril no canto da calçada. Acharam uns baseados com alguns dos loucos que estavam junto e esses foram direto pra delegacia, em outra viatura.
Mais nada...

Até que, quando, todo mundo durinho, de mão na cabeça, uma platéia assistindo, brigadianos passando nomes no rádio: sai o gato preto de dentro da mochila, o que chamou a atenção de todos. O gato começou a miar pra mim, enroscando nas minhas pernas, em pleno atrack. Passou por mim e ficou roçando nas pernas de todos os outros que ali estávam, como eu, de mãos na cabeça. Foi então, que ele começou a caminhar na direção da pista, pois estávamos em plena avenida movimentada. "Aí eu gritei: - Meu gato!" "Vai ser atropelado!" "Ele é filhote" O brigadiano me apontando uma 12 me olhou, pensou um pouco e disse: "Tá, vai lá e pega ele!!" Sem pensar meia vez, saí correndo e peguei o gatinho, que já estava quase descendo a sarjeta.
Voltei, coloquei o gato da mochila, e me posicionei novamente no lugar onde eu estava, com as mãos na cabeça. E o gatinho ficou quietinho na mochila.

Seguimos tranquilamente tomando mais este atrack, que não deu em nada, pois o base estava na ponta, cachaça é droga lícita e Solvcril também, tem na ferragem por R$6,50 o litro. Só os magrão, que eu nem conhecia direito, que foram pra delegacia, mas no outro dia já estavam na rua de novo.

Passei umas duas semanas na praia, nessa vez, e esse foi o primeiro atrack de muitos, pois tinha praticamente um brigadiano em cada rua. E o primeiro e único atrack na vida de um gato. hahahahahhahahaha Depois ele fugiu...

Vidaloka... Tramanda Beach... Adolescência...


(Ah, quem tá lendo, viu lá por baixo que tem o post com título "gato de orelhão". Mas esse aqui é o verdadeiro atrack com gato. hehehhe)

COMENTEM AÍ, GALERA!!!!
USEM OS COMENTÁRIOS PRA CONTAR AS SUAS PROEZAS TAMBÉM!!!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Confundido com os comparsas do "Seco" (Assaltante de banco, na época o mais procurado do RS, atualmente preso.)

Punks, de carro, na Farrapos.